Nos Estados Unidos os seguros pensam não cobrir as casas das pessoas que foram afetadas pelos incêndios. Que impacto teria essa situação em Portugal?
Exato, com as mudanças climáticas, os incêndios são mais frequentes e por exemplo, na Flórida, as companhias estão a pensar deixar de fazer seguros de incêndio porque acontecem com muita frequência.
É por isso que um fundo público faz todo o sentido porque vai acumulando capital. Imagine-se que não acontecia nenhuma catástrofe este ano. Todo o dinheiro que tinha sido pago para esse fundo público que seriam as apólices das pessoas, os impostos, digamos, a começar no seguro seriam introduzidas apólices de multirriscos, inclusive da casa e o seguro das empresas, havia lá uma taxa que seria para esse fundo que ia acumulando para no dia que houver uma catástrofe, responder a isso.
Estamos a arriscar para que um dia aconteça uma situação como Marrocos ou como aconteceu na Turquia o ano passado e não haja dinheiro. Tivemos o terramoto de 1775 e andamos todos a dizer que um dia acontece algo da mesma dimensão e se acontecer, pode ser uma situação muito complicada para a nossa economia.
Como seria definido o valor de reserva para uma catástrofe desta magnitude?
O que foi feito de estudo pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS) apenas para a parte de fenómenos sísmicos, ou seja, se acontecesse um terramoto da mesma dimensão de 1775, o fundo necessitaria de oito mil milhões de euros. Agora, se incluirmos outro tipo de catástrofe, como os incêndios, ou cheias tem que se definir a partir de que valor é que será considerada uma catástrofe.
O que propomos é haver um grupo de trabalho que envolva o regulador dos seguros que fizesse uma proposta de definição de catástrofes e a taxa de catástrofes que estavam cobertas e depois a forma de se financiar. A nossa proposta é de um valor que esteja em todas as apólices de multirriscos e depois é começar a acumular dinheiro para no dia que houver uma situação catastrófica. Mais uma vez, se acontecer uma coisa com muita gravidade, não vai haver Estado nem União Europeia a ajudar-nos nestas situações.
As autoridades políticas estão preocupadas?
Temos falado com os partidos políticos e eles têm levantado essa situação. Recentemente tive uma reunião com o grupo parlamentar do Partido Socialista e os próprios levantaram essa discussão. Vejo que existe alguma preocupação.
Acho que é responsabilidade da sociedade e nomeadamente da classe política, pensar nessas situações e não reagir só depois do ocorrido. Como dizemos em bom português, nas costas dos outros vemos as nossas. Estamos numa fase onde as alterações climáticas acontecem com maior frequência e com maior severidade e por isso é importante pensarmos que se acontecer cá, como é que a nossa economia está protegida.
Têm tido reuniões com as seguradoras? O que pensam elas da criação deste fundo?
Há algo que é muito consensual no sector das seguradoras, ou seja, desde as seguradoras ao regulador. Existe um consenso de que isto já devia ter sido feito há 20 ou 30 anos. Outra das ideias que temos e já falámos, com algumas associações do grupo de profissionais da Ordem dos Engenheiros, é que nós não sabemos qual é a proteção sísmica dos nossos edifícios.
A proposta que temos é muito simples também, que era termos os edifícios com a classificação como têm os electrodomésticos. Ou seja, vou comprar uma casa e sei que está com um nível de proteção A contra sismos e o prédio ao lado só é nível B. Se o valor for o mesmo e a casa igual é claro que vou comprar uma casa no prédio que está melhor protegido.
Acho que a construção em Portugal tinha uma evolução fortíssima, porque tinha um incentivo já que as pessoas todas queriam comprar prédios com proteção sísmica máxima e com melhor qualidade. Lisboa é uma bomba-relógio que temos. Tem que haver essa preocupação em Lisboa e Algarve são as zonas com maior risco sísmico e os Açores.
Jornal Económico 25/09/2023