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17-09-2015

“Na Tranquilidade, houve imprudência na gestão dos ativos financeiros”

O sector dos seguros vai passar por uma reestruturação parecida com a da banca. Vêm aí novas regras e o consumidor também vai pagar

É uma das 27 testemunhas de defesa de Ricardo Salgado no processo do Banco de Portugal. E um dos homens que mais percebe de seguros em Portugal. Entrou para o Banco Espírito Santo em 1993 e fez um percurso na direcção comercial da instituição que viria a representar, em Paris, entre 98 e 2001. Regressou como director de Marketing e, em 2006, saiu do BES para integrar o conselho executivo da Axa Portugal, onde esteve até 2010. Desde então e até hoje é accionista de um projecto de corretagem e mediação de seguros. Falou ao i enquanto presidente da APROSE - Associação Portuguesa da Mediação Profissional de Seguros, que actualmente representa perto de 22 mil trabalhadores, mais do que aqueles que empregam as 47 seguradoras que operam no país.

O sector segurador está a mudar. Que leitura faz?

A indústria seguradora está a passar a pior crise dos últimos 30 anos. Nunca se conjugaram, num curto espaço de tempo, factores como a exploração técnica negativa em mais do que um ramo - o ramo acidentes de trabalho é deficitário. o automóvel caminha para níveis preocupantes e existem problemas relacionados com o risco catastrófico, por exemplo. Paralelamente, um conjunto de companhias está a mudar de accionistas: a Fidelidade, a Tranquilidade, temos a indicação de que dentro do plano de reestruturação do Banif a Açoreana irá para o mercado e, agora, a Axa decidiu sair de Portugal e já comunicou a venda da operação à Ageas. As relações de parceria com as seguradoras são no sentido da geração de laços de confiança, quando há mudanças de atitude, isso leva-nos a dar alguns alertas.

Que alertas são esses?

É incontornável que tivemos uma crise económica forte, que levou a que houvesse menos riscos - menos veículos a circular, as empresas têm menor actividade económica, a massa segurável diminuiu. Estamos todos os operadores a trabalhar para um mercado mais reduzido.

Não há mercado para todos?

Tem a ver com a forma como o sector enfrentou a crise de 2008. O facto de ter muitos operadores com relação bancária - e alguns dos problemas vieram dessa relação, algumas das grandes seguradoras eram detidas por bancos -, acabou por privilegiar movimentos de curto prazo para gerar cash flow [fluxos de caixa], que nos seguros se consegue através de uma política de preços agressiva, preços baixos. Mas o risco chega mais à frente.

Pode dar um exemplo?

O seguro automóvel, em média, é hoje mais baixo do que era em 1991. A concorrência pelo preço, para ir buscar quota de mercado, criou uma disrupção generalizada de preços e chegou a um ponto em que a exploração técnica deixou de ser positiva.

Na relação banca-seguradoras, de que falava, asseguradoras serviam para muito mais. Hoje, em alguns aspectos, e por limitações impostas pelos reguladores, as seguradoras deixaram de ser úteis à banca.

Esse é outro aspecto importante. A alteração das regras a partir de 1 de Janeiro de 2016 vai obrigar a uma gestão mais cautelosa, pelo menos do ponto de vista regulamentar. O bom senso sempre fez com que essa prudência existisse...

Mas não existia sempre, como se viu. Existem nos seguros casos semelhantes aos que aconteceram na banca.

Em algumas operações. Objectivamente, na Tranquilidade, o problema que é conhecido, houve claramente uma imprudência na gestão dos activos financeiros. Aquilo que as novas regras vão ditar é que se houver investimento mais arriscado, o capital da seguradora tem de estar compatível com o risco que é tomado. Nesse aspecto, o quadro europeu salvaguarda melhor a posição do mercado. Portanto, voltamos aos alertas da APROSE.

Ou seja?

Não podemos ter uma indústria seguradora com resultados positivos só fruto de resultados financeiros (neste semestre os ganhos com a divida pública foram importantes), mas temos de ter uma gestão saudável. Já vimos o que seria uma sociedade sem seguro automóvel, era calamitoso, a litigância aumentava muito.

Isso quer dizer que os seguros vão ficar mais caros?

A ideia não é criar um modelo de aumento generalizado dos preços. Trata-se de criar um melhor modelo de avaliação do preço do risco: temos muitos consumidores que têm um padrão óptimo ou muito bom de comportamento. Por exemplo, no caso automóvel existe um factor bonus-malus e os clientes têm acesso a essa informação. Se uma seguradora quiser ganhar quota de mercado criando descontos comerciais em cima do sistema de bonusmalus, vai enviesar a avaliação do risco. No limite, podemos ter clientes com um perfil superior a pagar menos do que um cliente de perfil de risco médio. Na área dos acidentes de trabalho é igual. Estatisticamente, a indústria mineira e a construção civil concentram uma parte importante dos acidentes de trabalho ao longo do tempo. É preciso que estas empresas tenham a consciência que têm de pagar o preço do seu risco. Se começo, enquanto seguradora, a baixar o preço ferindo estas questões, vou ganhar negócio, vou ter cash flow, mas vou ter problemas mais à frente.

Os preços vão ou não aumentar?

De uma forma generalizada, há que actuar onde são as franjas, onde o risco não está a ter o preço devido. Isso já é o suficiente para voltar ao equilíbrio técnico. Não é necessário um choque, é alterar os fundamentos que foram mal geridos no passado.

O que não é bom para as seguradoras, não é bom para os mediadores...

Nós, mediação profissional, estamos preocupados na medida em que se o mercado não é saudável, se a exploração técnica se degrada, poderemos ter fenómenos de redução da oferta. Quando multinacionais saem do mercado português, é negativo, porque passa a haver menos oferta. O próprio regulador [actual Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), antigo Instituto de Seguros de Portugal (ISP)) já deu sinais de que vai estar atento às companhias de seguros que não consigam implementar os planos de recuperação técnica e vai exigir aumentos de capital ou outro tipo de medidas. A indústria tem a capacidade para fazer este movimento sem ser pressionada por dramas que possam acontecer caso não se faça nada. E é isto que quero dizer ao mercado enquanto presidente da APROSE.

Os mediadores são entidades independentes das seguradoras e a Lei da Mediação está também em vias de ser alterada. Que mudanças vai trazer?

A directiva da mediação vai ser revista e transposta para a lei nacional no próximo ano. Portugal vai poder implementar mais regras que contribuam para a profissionalização dos mediadores. Para ter uma ideia, a última revisão foi em 2007, e o número de mediadores diminuiu de 46 mil para 23 mil, apenas com a transposição de uma directiva europeia para a legislação nacional.

E como é agora?

Hoje estão habilitados pelo ASF e Associação Portuguesa de Seguradores cerca de 22 mil mediadores, mas nem todos têm o mesmo grau de profissionalismo: cerca de 10 mil têm remuneração anual inferior a 6 mil euros, ou seja, não o fazem em full time.

O que defende a associação?

Duas coisas: as regras da revisão da directiva da mediação de seguros, que vai chamar-se directiva da distribuição de seguros, com padrões de formação contínua, o que só se consegue com um rendimento a partir de determinado patamar, que, para nós, deve ser o salário mínimo nacional para quem exerce a actividade, e vamos bater-nos por isso. O fórum de discussão é o parlamento, a APROSE, a APS e o regulador, que terá uma palavra muito importante a este nível. O debate já foi iniciado e a directiva vai ser aprovada a nível europeu este segundo semestre e, em 2016, no primeiro semestre, será a discussão e aprovação em Portugal. O modelo que existe, e o facto de as seguradoras estarem a recentrarse, a especializar-se, a recuperar alguma rentabilidade na tomada de risco e cautela na gestão de activos, procurando variabilizar o custo com a distribuição, é um espaço para a mediação profissional funcionar como conselheiro. O sector da mediação tem mais empregabilidade, a distribuição gera mais empregos que asseguradoras directamente.

Quanto representa este mercado?

Hoje o mercado representa sensivelmente 4,7 mil milhões no não vida e 12 mil milhões no vida, ou seja, 30% ramos reais e 70% ramo vida. O que pensamos é que nos ramos reais e no vida risco, que é uma parte dos 70%, a mediação profissional tem um peso muito importante na distribuição. Sentimos que a realidade tende a alterar: Nos últimos anos houve uma explosão dos seguros de capitalização, que veio pelas relações da banca-seguros, por produtos do próprio banco que eram empacotados em seguros comercializados no grupo. Muitos deles, ao nível europeu, estiveram na génese dos problemas da crise financeira. E aí foi criada a directiva europeia que veio regular os produtos de investimento e pôr em evidência os conflitos de interesse. Acreditamos que esta fatia de negócio vai tender a diminuir, porque as regras vão ser muito apertadas.

Não se quebrou a relação de confiança?

O que vai emergir é aquilo que era a génese do seguro de vida, a liquidez está aí e os consumidores têm de a aplicar. Estou em crer que as próprias seguradoras vão ter muita vantagem em mostrar os activos em que aplicam estas reservas. Só assim é que vão conseguir criar esta confiança.

Existem seguradoras a mais em Portugal?

Eu diria que em nenhum sector em concorrência aberta podemos afirmar que existem empresas a mais ou a menos. Enquanto mediadores profissionais vemos isto como desiderato: não vamos ter todas a seguradoras a fazer o mesmo. O Solvência II vai ter um papel muito importante, vai ser mais exigente do ponto de vista do capital. Qualquer seguradora confrontada com isto tem duas hipóteses: se tem escassez de capital e é generalista, ou aumenta o capital ou passa a trabalhar em nichos de mercado, onde há ainda muito para fazer, como no ambiente e no ciber-risco. Acredito que vamos ter uma maior especialização. Mas também há espaço para mais seguradoras de maior dimensão globais - nos ramos reais existe apenas uma com mais de 10% de quota de mercado, que é a Fidelidade -, e que precisamos que sejam robustas. Também poderão existir as fusões.

Associação apresenta queixa na CNPD

Desleal - A APROSE -Associação Portuguesa da Mediação Profissional de Seguros diz que há bancos que estão a utilizar informação privilegiada de clientes, que lhes chega para procederem a débitos directos, para, antes de procederam às operações, apresentarem propostas de venda de produtos concorrenciais a melhor preço. E apresentou uma queixa na CNPD - Comissão Nacional de Protecção de Dados. O presidente da APROSE, Luís Cervantes, explica o esquema: "Quando alguém faz um seguro automóvel, e para simplificar processo de pagamento, pode optar por um débito directo, que em Portugal é gerido pela SIBS. A seguradora faz chegar ao banco respectivo os dados para efectuar a operação.

Acontece que alguns bancos utilizaram essa informação, que tem o nome do cliente, para quem é, o seguro em causa, as condições, o preço e, antes de fazer o débito na conta, apresentam-lhe uma proposta em nome da sua seguradora, com condições mais atractivas. Temos tido muitas queixas de mediadores e de clientes sobre estes contactos".O pedido de esclarecimento foi apresentado no final de Abril e até agora não houve resposta.

i 17/09/2015

A notícia completa é divulgada no Jornal de Seguros, publicação editada semanalmente pela APROSE e dirigida exclusivamente aos seus Associados.


 


 

 
 
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